• Dornélio Silva (*)

O HOMEM BOM NÃO SERVE PARA GOVERNAR


Mediei um grupo focal de pesquisa qualitativa de jovens numa cidade do sudeste paraense para avaliar a administração do gestor local no ano de 2012. Ao perguntar qual a imagem que eles tinham do prefeito, uma jovem de 17 anos falou o seguinte: “o prefeito é uma pessoa muito boa, legal mesmo, se batem numa face dele, ele até oferece a outra pra bater, mas como prefeito ele não serve pra governar”.

A partir desta constatação da jovem, construi um artigo, tendo como princípio de que o homem bom não serve para governar. Para ajudar no debate busquei ajuda de três clássicos da literatura da ciência política: Thomas Hobbes, John Locke e Maquival que discutem o estado de natureza humana.

Em Hobbes, o homem em estado de natureza apresenta-se como violento onde todos estão contra todos, mostrando uma visão pessimista do homem. Para apaziguar esta situação, há a necessidade de um pacto social. Hobbes admite que “não só todos os homens são maus, mas também que são maus por natureza”. Neste aspecto ele induz a dizer que todos os homens são desconfiados e, por conseguinte, desconfiam uns dos outros tanto os bons quanto os maus homens. Hobbes afirma que “se os maus fossem em menor número do que os bons, pelo fato de não termos condições para distinguir os bons dos maus, sempre pesará também sobre os bons e pacíficos a necessidade de desconfiar, tomar precauções, prevenir-se, dominar, defender-se de algum modo. Segue aquele princípio que os que são maus foram feitos maus pela natureza.” Ressalte-se o fato de Hobbes dizer da dificuldade de distinguir os bons dos maus homens, neste caso para os bons também pesará a necessidade de desconfiar, mesmo sendo bom e pacífico.

Já em Locke é a guerra de todos contra os transgressores das leis naturais. Os homens gozam de perfeita liberdade para ordenar-lhes as ações e regular-lhes as posses e as pessoas conforme acharem conveniente. Para Locke essa liberdade deve ser praticada dentro dos limites da lei da natureza, sem pedir permissão ou depender da vontade de qualquer outro homem. Não se trata da guerra de todos contra todos, como em Hobbes, mas de uma guerra contra os transgressores da lei natural. O homem é o senhor e amo de todas as suas manifestações, mas também é igual aos outros, que são criaturas da mesma espécie e posição, sendo assim, independentes. Segundo ele, os homens em Estado de Natureza são livres, iguais e independentes na medida em que todos estão sujeitos às leis da natureza, não devendo abusar de sua liberdade para prejudicar os outros. Quem agride o outro está indo contra as leis naturais, renunciando à razão e dando aos outros o direito de castigá-lo, ocasionando as lutas.

Locke admite que o homem pode ter um poder sobre o outro no estado de natureza, mas um poder de executar as leis da natureza, repelindo as injustiças de modo proporcional à agressão de determinadas atitudes ofensivas, justificando a única situação legal dele poder fazer mal a outro. É o que ele chama de castigo.

Qualquer indivíduo que esteja transgredindo deliberadamente as leis naturais torna-se perigoso para a humanidade, pois está ao mesmo tempo ofendendo a perfeita liberdade e igualdade.

Ao imaginar o estado de natureza desta forma, John Locke confere aos indivíduos alguns direitos, que são: 1) o de castigar o crime e preveni-lo e, 2) reivindicar ou obter reparação do dano causado, que caberá somente a parte prejudicada.

Maquiavel diz que “é uma coisa muito natural e comum o desejo de adquirir”. A declaração indica a crença de Maquiavel, que não só os homens naturalmente "querem" ou "desejem", mas, além disso, que eles também anseiam por mais do que possuem (o desejo natural de "adquirir" mais). Assim o homem natural de Maquiavel, além de ganancioso, é, também de interesse próprio: deseja adquirir o que ele não possui, mais que o outro homem possui; o homem natural de Maquiavel é preocupado mais consigo do que com outros. E como os homens são naturalmente egoístas, Maquiavel diz que não devem ser responsabilizados por irregularidades na aquisição de "mais" quando essas oportunidades se apresentam; mas sim, esses homens devem ser "louvados".

A perspectiva de tratar sobre a natureza humana de Maquiavel, talvez se apresente a partir da pergunta "se é melhor ser temido do que amado, ou o contrário". Ideal é ser amado, aceito pelos outros; e ao mesmo tempo ser temido, a fim de se proteger de potenciais inimigos. No entanto, essa condição ideal é quase inatingível. Então, Maquiavel, interpretando a questão estritamente em termos de eficácia, argumenta que "é muito mais seguro" para um príncipe ser temido do que amado porque os indivíduos mantendo medo garantem um grau necessário de segurança.

Após a visão dos três autores, procuro, agora, estabelecer uma relação, destacando, a partir da conceituação do homem em estado de natureza, que o homem bom não serve para governar. Entenda-se, aqui, o governar no âmbito do executivo. Por outro lado, o homem bom que discuto no texto é aquele homem caridoso, humilde, simples, religioso, atencioso, chegando, até, a ser carismático; aquele que acredita e confia demais no outro homem; que tem facilidade de perdoar; que não sente rancor ou mágoa de outros que lhe fizeram mal; que acredita que os homens podem mudar, depois de ações insensatas. Este homem, ao chegar ao poder, dificilmente terá sucesso em seu governo.

O entendimento hobbesiano de que o homem é mau por natureza e que, por sua vez, são desconfiados entre si, leva a crer que o homem que se posiciona como bom dificilmente logrará êxito em suas ações dentro de um ambiente desta natureza. Ele afirma que se os maus fossem em menor número do que os bons – há a dificuldade para distinguir entre os bons e os maus – pesará sempre sobre os bons e pacíficos a necessidade de desconfiar, tomar precauções, prevenir-se, dominar, defender-se de algum modo. Esta é a dificuldade deste homem bom de que falei anteriormente quando assume o poder, para fazer isso ele terá que romper com seus princípios de bondade se quiser governar, tendo em vista que este homem-bom encontrará na comunidade homens interesseiros ávidos de querer, de possuir, de ter; e, que, na maioria das vezes, não poderá atender a essas necessidades.

Além disso, este homem-bom ao subir ao poder precisará montar ao seu redor uma equipe formada por pessoas, por homens que em seu estado de natureza são egoístas e gananciosos. E recorrendo a Maquiavel, esses homens são ingratos, volúveis, dissimulados, sonegadores de perigo e ávidos por lucro. Na frente do homem-bom dissimulam bondade, por trás mostram sua face pecaminosa, aproveitando qualquer oportunidade para se dar bem. Ao perceber ações transgressoras tanto de homens da comunidade quanto de homens próximos ao executivo, este homem-bom teria que tomar posições coercitivas, valendo-se do poder que lhe foi dado. No entanto, pela dissimulação de bondade construída por estes homens, o homem-bom, pelo seu ímpeto natural, tenderá a acreditar nas lamúrias, nas desculpas, nas histórias e, por conseguinte, perdoará. Não haveria razão para tal, se transgrediu as regras estabelecidas, teria que ser punido.

É normal que o homem tenha a capacidade de estar satisfeito, de ser feliz, de usufruir das benesses que lhe são postas; enquanto tudo isso estiver ocorrendo estará feliz; no entanto, quando as adversidades da vida lhe são apresentadas os homens voltam à sua maneira egoísta, enganadora, e com fins lucrativos. Daí a mutabilidade da natureza humana que pode tender a felicidade ou infelicidade, dependendo das circunstâncias que lhe são postas. Como afirmava Maquiavel, o príncipe pode alterar e influenciar o comportamento de seus súditos; o governante, hoje, tem essa capacidade, também, desde que deixe de ser comandado por outros ou pelas circunstâncias do poder, mas que entenda o seu papel de governante colocado no poder pela vontade de uma maioria de pessoas.

Ainda recorrendo a Maquiavel para mostrar que o homem-bom não serve para governar, o italiano diz que há tanta diferença de como se vive e como se deveria viver, que o homem que abandone o que se faz por aquilo que se deveria fazer, aprenderá antes o caminho de sua ruína do que o de sua preservação. Vai além, afirmando que um homem que queira em todas as suas palavras fazer profissão de bondade, se perderá em meio a tantos que não são bons. Daí o governante que queira se manter no poder, aprenda a não ser bom e usar ou não da bondade apenas segundo a sua necessidade.

Este homem-bom governante terá dificuldade de cumprir ou estabelecer novas regras à medida que vai se deixando levar pela impetuosidade de outros homens da comunidade ou de seu grupo governista. Se o governante for um vigilante, tendo cuidado com as desordens presentes, como também com as futuras, facilmente pode adotar medidas coercitivas, impedindo maiores estragos estruturais de seu governo; mas se protela, ou espera que os males se avizinhem, o remédio não chega a tempo, então o mal se torna incurável. O homem-bom governante, acreditando em demasia nos outros homens não tem a capacidade de prever e evitar os males. Assim, os pequenos males vão se disseminando pelo tecido social e tornam-se um vírus social, uma infecção generalizada em todas as esferas governamentais, levando este homem-bom e seu governo à morte política.

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