POR QUE A MÁQUINA PERDEU NO PARÁ

Hana Ghassan tinha o Estado, 140 prefeitos e a maioria da Assembleia. Dr. Daniel tinha Ananindeua e uma ideia que o eleitor já havia comprado: chega. A eleição de 2026 no Pará é a prova de que estrutura não vence humor social.
No papel, não havia disputa. De um lado, a candidata da continuidade reunia tudo o que a cartilha manda ter: a máquina do governo estadual, a quase totalidade dos 144 prefeitos, a maioria dos deputados estaduais, a imensa maioria dos vereadores e o aval da liderança mais experiente da política paraense. Do outro, um prefeito de Ananindeua, mais três ou quatro prefeituras e pouco mais. Era, na conta tradicional, um rolo compressor contra um fusca.
O resultado inverteu o roteiro. Dr. Daniel (Podemos) venceu no primeiro turno com 51,36% dos votos válidos — cerca de 2,34 milhões de votos — contra os 46,35% de Hana Ghassan (MDB), uma diferença de aproximadamente 220 mil votos. E a explicação para isso diz mais sobre o estado de espírito do eleitor do que sobre organograma de campanha.
Máquina não é voto

A primeira lição é também a mais ignorada pelos derrotados: apoio institucional organiza a disputa, não a vence. Prefeitos entregam palanque, estrutura, carro de som e capilaridade no interior. Não entregam o voto, que continua sendo secreto e, sobretudo, humano. Quando sopra um vento de alternância, o cabo eleitoral sobe no palanque de manhã e o eleitor dele vota noutro candidato à tarde. Confundir adesão de gabinete com intenção de voto foi o primeiro erro de cálculo — e o mais caro.
Some-se a isso a geografia eleitoral. Cento e quarenta prefeituras pulverizadas pelo interior pesam menos do que uma base sólida na Região Metropolitana de Belém, onde está o maior colégio eleitoral do Estado. Dr. Daniel, prefeito de Ananindeua, a segunda maior cidade do estado, jogava exatamente onde a eleição se decide. A matemática do "temos quase todos os municípios" ignorava que nem todo município vale o mesmo número de votos.
O voto não foi contra o Barbalho — foi contra a dinastia
Aqui está o dado que torna a leitura irrefutável, e não apenas plausível: o mesmo eleitorado que recusou a candidata do grupo elegeu Helder Barbalho senador com mais de 2,2 milhões de votos. Não foi rejeição a uma pessoa. Foi um voto dividido, consciente e cirúrgico: mantenha-se o nome popular em Brasília, mas não se entregue o comando do Estado à continuidade da mesma família.
E a família estava em todo lugar. Pai no Senado, filho ministro de um governo federal, mãe deputada federal, esposa no Tribunal de Contas do Estado, primo na prefeitura de Belém. Para o grupo, isso era força — o domínio das instituições. Para a população, virou outra coisa: a sensação de que não sobrava espaço, de que tudo pertencia aos mesmos. Avaliação boa de gestão convive muito mal com percepção de captura. Um eleitor pode reconhecer que o governo entregou obras e, ao mesmo tempo, decidir que já é hora de arejar o poder. Foi o que ele fez.
O erro de produto: um candidato escolhido de cima para baixo
Se o ambiente já era adverso, a escolha da candidata agravou tudo. Decidir o nome sem consultar o grupo, por decisão vertical do lider, foi um gesto que contradizia precisamente a mensagem que as ruas emitiam. Enquanto o eleitor pedia menos personalismo e mais renovação, o grupo respondeu com a forma mais concentrada possível de decisão política. A narrativa adversária não precisou ser inventada: ela foi oferecida de bandeja.
No plano eleitoral, o problema foi somar a uma campanha de continuidade um nome de perfil mais técnico, com baixa densidade eleitoral própria e pouca marca construída. Avaliação positiva de um governo não se transfere automaticamente para um sucessor pouco conhecido — ainda mais numa janela curta, já que a troca de comando ocorreu no meio do caminho, com a saída do titular para o Senado em abril. A candidata herdou o ônus da continuidade sem ter tido tempo de construir o bônus do carisma próprio. É o pior dos dois mundos.
Subestimar o adversário foi o golpe final
Por fim, a soberba. O grupo tratou Dr. Daniel como figurante de um roteiro já escrito. Mas ele carregava uma combinação rara: a credibilidade de quem já administrava uma grande cidade e a legitimidade de quem rompeu com o próprio grupo que o apoiara em 2020. Ou seja, tinha ao mesmo tempo gestão para mostrar e autoridade para encarnar a mudança. Contra um candidato assim, chamá-lo de "fraco" não foi estratégia — foi diagnóstico errado.
O que fica

A leitura mais realista da eleição de 2026 no Pará não é a de que a máquina falhou por incompetência operacional. É a de que a máquina foi colocada a serviço de um projeto de continuidade contra uma demanda clara de alternância, com um candidato imposto de cima para baixo e um adversário subestimado que representava exatamente o que faltava. O eleitor não foi irracional; foi preciso. Premiou o indivíduo mais popular do grupo e puniu a perpetuação da família no Executivo. Estrutura, prefeitos e deputados servem para disputar bem, não para vencer quando o humor social virou.
Fica, para além do Pará, um aviso válido para qualquer grupo político que confunda domínio das instituições com apoio das pessoas: no dia da eleição, o eleitor sempre lembra quem manda e, de vez em quando, decide justamente por isso trocar o comando.
Dornélio Silva
Cientista Político e Diretor da Doxa





Comentários