• Dornélio Silva (*)

Sob nova administração, ORM divulga obra do governo federal e exalta Helder Barbalho


A eleição no Pará, ao longo de sua história, além de ser uma disputa política de grupos oligárquicos, sempre foi, também, em grande escala, uma disputa entre dois grupos de comunicação: ORM (Organizações Rômulo Maiorana) e RBA (Rede Brasil Amazônia). Exemplo disso, vimos acontecer com as eleições de 2014, uma das campanhas estaduais mais acirradas e disputadas dos últimos pleitos da história do Pará.

Foi a primeira em que um político conseguiu um terceiro mandato no Pará, neste caso o governador Simão Jatene. Também foi a primeira vez que ele participou de uma campanha como candidato a reeleição.

Vejamos: A primeira, quando ganhou, foi indicado e apoiado por Almir Gabriel (governador à época). Depois de quatro anos, quando defenderia seu mandato numa reeleição, não foi candidato, deu lugar a Almir Gabriel que foi derrotado por Ana Júlia. Em 2010, Ana Júlia não consegue se reeleger e é derrotada por Jatene.

Em 2014, Jatene foi candidato à reeleição, defendendo seu mandato. Ressalte-se que foi uma campanha atípica dentro de um Pará dividido (a primeira após o plebiscito que pretendeu dividir o Pará em três unidades federativas). Além disso, foi o confronto de dois grupos (econômico e de comunicação) que se debateram nesse processo. Os interesses eram grandiosos. Daí o acirramento intenso e o nível muito rasteiro da campanha.

Helder com o aparato da RBA venceu o primeiro turno com uma diferença de apenas 137.390 votos, ou seja, 1.4% dos votos válidos. No segundo turno, Jatene virou o jogo e saiu vitorioso, mantendo o apoio das Organizações Rômulo Maiorana.

Em 2018, o cenário de atrito tem mudado de forma radical. A RBA continua reforçando e difundindo massivamente, através de todos os seus veículos de comunicação, o nome de Helder Barbalho, herdeiro do império de comunicação da sua família. A novidade é a postura das ORM, que agora, sob nova direção, vem surpreendendo a todos com matérias que positivam a imagem do ex-algoz.

Exemplo disso foi a matéria veiculada tanto no jornal O Liberal, quanto nos portais G1 Pará e ORM News, assim como na TV Liberal, anunciando o lançamento das obras do projeto “Belém Porto Futuro”, onde aparecem o ministro Helder Barbalho, o senador Jader Barbalho e a deputada federal Elcione Barbalho, assim como a bancada federal e estadual do (P)MDB paraense.

Helder, claro, difundiu a matéria em sua fanpage.

O próprio portal G1 Pará chegou a divulgar que a obra estava sendo investigada pelo Ministério Público Federal (MPF) para apurar denúncias sobre o projeto de revitalização do porto de Belém, pois a área é tombada pelo patrimônio histórico, mas assim como o projeto de reforma do Ver-o-Peso, o projeto “Belém Porto Futuro” não havia sido submetido para aprovação pelo Iphan.

Para quem não conhece a histórica disputa da família Maiorana, com o partido e a família Barbalho, talvez não veja nada de mais na matéria e nem na mudança na forma em que a notícia foi divulgada. Mas para quem sabe como estes dois rivais se tratavam, a cena é emblemática e revela uma ruptura de paradigmas até então inacreditável no metiê político, midiático e empresarial do Pará.

Acontece que a recente saída de Rômulo Maiorana Júnior do controle das ORMs causou uma mudança não só de comportamento empresarial, mas sobretudo de postura política. O aceno dos novos controladores da empresa – o irmão Ronaldo Maiorana e suas duas irmãs – foi mais do que positivo para a campanha de Helder ao governo. “Foi de cumplicidade”, avaliou um amigo com quem conversei logo após assistirmos o Jornal Liberal.

Para o atento observador, a matéria fez o que podemos chamar de merchandising para as ações do governo federal, que no Pará são capturadas pela pré-campanha do ministro da Integração Nacional, acusado de usar aviões da FAB para curtir os fins de semana e para dar carona a parentes e lobistas, conforme noticiado pela imprensa nacional.

(*) Dornélio Silva é mestre em Ciência Política e diretor do Instituto Doxa Pesquisa.

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